terça-feira, 22 de julho de 2014

Folha de São Paulo: Opinião: Indignação na internet é uma maneira de protestar com toques

TEDDY WAYNE

Não são necessários muitos cliques para encontrar indignação na internet. Conecte-se a uma rede social e você verá gente se sentindo ultrajada por celebridades e pessoas comuns. É aí que o jogo começa para valer: tribunais, movimentos sociais, meios de comunicação, corporações e governos atraem todo tipo de indignação.
Como diz uma surrada piada no Twitter: "Do que estamos com raiva hoje?".

Comentários agressivos fazem parte da cultura da internet há muito tempo, como mostram qualquer seção de comentários. Mas nos últimos anos essa raiva tem proliferado nas mídias sociais, onde as pessoas proclamam sua indignação ética.

Um estudo de 2013 da Universidade Beihang, de Pequim, sobre o Weibo, espécie de Twitter chinês, revelou que a raiva é a emoção que se espalha mais facilmente nas redes sociais. A alegria ficou num distante segundo lugar.

Ryan Martin, que estuda a raiva e é professor de psicologia da Universidade de Wisconsin, em Green Bay, disse que a principal diferença é que, enquanto nos inclinamos por compartilhar a felicidade apenas com as pessoas mais próximas, estamos dispostos a aderir à raiva de estranhos.

As pessoas propensas à indignação na internet estão em busca de validação, disse Martin. "Elas querem escutar que os outros a compartilham", disse, "porque sentem que estão legitimados e um pouco menos solitários e isolados em suas crenças".

A indignação na internet normalmente diz mais sobre quem faz o comentário do que sobre a causa, e seu desdobramento pode fazer mais mal do que bem.

Em outro estudo de 2013, Martin percebeu que as pessoas suscetíveis à indignação na internet tendem a ser mais raivosas. "As pessoas que esbravejam on-line de qualquer maneira tendem a se envolver mais em agressões físicas e verbais", disse.

A indignação carrega um sabor diferente da raiva pura; sugere uma afronta ao sistema de valores de alguém.

O indignado pode estar legitimando um mecanismo de defesa reforçado pela própria cultura da ira na internet. Expressar indignação é se proteger das críticas. Mas tais reações podem ofuscar ou diminuir a complexidade de um assunto, mais do que iniciar um debate profundo.

Além disso, comentários indignados às vezes são mais ofensivos do que a má conduta inicial.

As multidões produzem um senso de anonimato e, em meio à tendência de indignação no Twitter, Martin disse que "você pode se sentir anônimo, mesmo se de fato não estiver".

Em última análise, a indignação na internet é uma maneira de protestar com toques e cliques em vez de boicotes e passeatas. É uma atitude nobre se indignar por uma causa e correr o risco de ser preso sem reconhecimento. Menos honroso é participar de um ataque digital como um meio de sustentar o próprio ego.

Talvez o verdadeiro problema, sugeriu Martin, não seja a nossa raiva, e sim a nossa imprudência e o relacionamento dela com os nossos aparelhos facilmente acessíveis. "A internet aumenta os problemas de controle dos impulsos", disse.

"Você fica bravo e pode contar isso ao mundo em instantes antes de ter a chance de se acalmar e analisar as coisas."

Folha de S.Paulo:Empregados são vigiados digitalmente


STEVE LOHR


Ferramentas tecnológicas avançadas estão começando a viabilizar a avaliação e monitoramento de funcionários em patamares sem precedentes, o que abre a possibilidade de mudar fundamentalmente o modo de trabalhar e suscita preocupações com a privacidade diante da vigilância indiscriminada.
Empresas descobriram que os trabalhadores são mais produtivos quando há mais interação social. Por isso, o call center de um banco introduziu uma pausa compartilhada de 15 minutos para o café, e uma empresa farmacêutica substituiu cafeteiras usadas por alguns funcionários de marketing por uma cafeteria maior. O resultado? Aumento nas vendas e menos rotatividade de empregados.

No entanto, a perspectiva de monitoramento digital cerrado do comportamento dos trabalhadores preocupa defensores da privacidade, pois as empresas têm poucas obrigações legais além de informar aos funcionários.

Quando começou a trabalhar como garçom em um restaurante em Dallas, Jim Sullivan ficou sob observação não de um chefe humano, mas de um software inteligente. Ele contou que a sentinela digital seguia cada garçom, cada comanda, cada prato e cada drinque, em busca de padrões que pudessem sugerir que um funcionário estivesse cometendo furtos. Mas essa torrente de informações detalhadas geradas em computador guiou os holofotes para os trabalhadores mais produtivos.

Sullivan tinha um bom desempenho e, quando seu patrão abriu um quarto restaurante em 2012, foi nomeado gerente.

No entanto, até profissionais da área de análise do ambiente de trabalho dizem que é necessário haver regras relativas à privacidade para que esse ramo de atividade prospere.

A startup Sociometric Solutions orienta as empresas a adotarem crachás de identificação com sensores para seus funcionários. Tais crachás sociométricos, equipados com dois microfones, um sensor de localização e um acelerômetro, monitoram o tom de voz, a postura e a linguagem corporal.

Bryan Koop, desenvolvedor de programas para escritórios comerciais que trabalhou na Sociometric Solutions, disse que atualmente é moda no projeto de escritórios utilizar certos recursos para aumentar a produtividade.

"Não se sabe ainda se essas táticas funcionam", disse Koop. "O que estamos começando a ver é a possibilidade de mensurar coisas quantitativamente, em vez de nos guiarmos apenas pela intuição."

Segundo Lamar Pierce, professor-assistente na Faculdade de Administração de Empresas Olin, da Universidade Washington em St. Louis, ferramentas digitais para vigilância podem ser consideradas simplesmente boas ou más. "O maior desafio para todos nós", disse ele, "é descobrir qual o nível correto e em que contexto isso é feito."

Pierce foi coautor de uma pesquisa publicada no ano passado, que examinou o efeito de softwares de monitoramento usados em restaurantes.

Ele estudou os dados de todas as transações e padrões que sugeriam furto antes e após a instalação dos softwares em 392 restaurantes, em 39 Estados. A redução de furtos foi modesta, equivalendo a um ganho de US$ 108 por semana em cada restaurante. Mas em cada um deles a receita subiu em média US$ 2.982 por semana, ou seja, cerca de 7%, um ganho considerável em um segmento com baixa margem de lucro.

Cientes de que estavam sendo monitorados, os garçons estimulavam os clientes a pedir sobremesa ou mais uma cerveja, aumentando a receita do restaurante e suas próprias gorjetas.

Hoje em dia, Sullivan usa um software para monitorar os funcionários e comentou que os dados podem mostrar que alguém eficiente para servir várias mesas não é tão bom em vendas. Um garçom desse tipo, disse Sullivan, deveria ser orientado sobre a maneira de falar com os clientes e de sugerir certos pratos e drinques.

"Os dados me permitem avaliar melhor quem precisa ser treinado", explicou Sullivan.

Folha de São Paulo: Uso de bitcoins no mundo real esbarra em burocracias tecnológicas

Renata Miranda

Quando recebi a missão de passar dois dias vivendo apenas às custas de bitcoins, o primeiro receio foi ter de fazer transações pela internet. Apesar de ter quase 30 anos, comporto-me como uma senhora de bengala que prefere pagar as contas no banco, enfrentando fila e evitando o caixa eletrônico para interagir com um ser humano.

A segunda preocupação foi descobrir onde encontrar as tais moedinhas para trocar por valiosos euros. No início, nem passou pela minha cabeça a possibilidade de não encontrar estabelecimentos comerciais em Berlim que aceitassem bitcoins e ter de passar dois dias dependendo da boa vontade de estranhos.
Filipe Rocha/Editoria de Arte/Folhapress 
Antes de sair pelas ruas da cidade torrando o rico dinheirinho, comecei a pesquisar o que de fato são bitcoins. Primeiro, tive de abrir uma conta em um site corretor de bitcoins exclusivo para residentes na Alemanha.

Após um complicado processo de cadastro e autenticação, consegui entrar no mercado virtual de transferências, realizadas diretamente entre usuários –uma das maiores vantagens da moeda, dizem os entusiastas, é a ausência de bancos.

Minha ideia era comprar cerca de € 100 em bitcoins. Achei que a quantia renderia algumas boas moedas virtuais, mas quase tive taquicardia quando vi que com esse dinheiro não era possível comprar um único bitcoin inteiro –no dia em que fiz a troca, 1 bitcoin equivalia a € 475.

Com € 89,79 consegui comprar exato 0,1881 bitcoin. Fiz os trâmites de transferência bancária e esperei.

Esperei por quatro dias.

Quando tinha certeza de que havia sido vítima de mais um esquema desonesto na web, recebi um e-mail de confirmação de que as moedinhas haviam sido debitadas na minha conta. Agora, precisava encontrar uma maneira de transferir o dinheiro do computador para o celular.

COMO PAGAR

Fazer pagamentos não é muito mais difícil que usar a máquina de cartão. Primeiro, o tablet ou celular do vendedor emite um código QR –espécie de código de barras. Depois, o comprador deve escaneá-lo com o celular e inserir a senha na carteira virtual.

Outra saga teve início aí. Com um iPhone, encontrar uma carteira virtual para acomodar meus bitcoins foi tarefa árdua, já que os aplicativos mais populares do tipo foram todos retirados da loja oficial, pela Apple, no início do ano.

Apenas no meio de junho um novo app, o CoinPocket, foi autorizado pela empresa. Transferi os bitcoins para o celular e esperei sexta-feira chegar –quando comecei a gastar tudo.

Folha de São Paulo: Itália dá 18 meses a Google para mudar práticas de uso de dados


O órgão regulador de proteção de dados da Itália deu ao Google 18 meses para mudar a forma como trata e armazena dados de usuários, pondo fim a uma investigação que é parte de um movimento europeu para reformar as práticas de privacidade da gigante da internet.

Reguladores em diversos países europeus, incluindo a Itália, deram início a uma investigação conjunta no ano passado, após o Google consolidar suas 60 práticas de privacidade em apenas uma. A empresa combinou dados coletados de usuários individuais de seus serviços, incluindo YouTube, Gmail e a rede social Google Plus. O Google não deu aos usuários uma forma de optar pela não consolidação.

Em comunicado nesta segunda-feira (21), o órgão regulador italiano disse que a maneira como o Google informa aos usuários como seus dados estão sendo tratados permanece inadequada, apesar de a companhia ter tomado medidas para se adequar a leis locais. A autoridade deu 18 meses à empresa para obedecer totalmente às regras.

O regulador, baseado em Roma, disse que o Google não terá a permissão de usar dados para criar perfis dos usuários sem seu consentimento anterior e precisará dizer a eles explicitamente que os perfis são feitos para propósitos comerciais.

Um porta-voz do Google disse que a empresa sempre cooperou com o regulador e vai continuar a fazê-lo, acrescentando que analisará cuidadosamente a decisão antes de tomar novas medidas.

O Google já foi multado por reguladores de França e Espanha por quebrar leis locais sobre proteção a dados.

Folha de S. Paulo: Noticiário de 'Tec' passa a ser incluído em 'Mercado'


A partir desta semana, o noticiário sobre tecnologia de "Tec" deixará de circular como caderno e passará a ser incluído às terças-feiras em "Mercado", que já abrigava a cobertura diária do setor.
A coluna de Ronaldo Lemos ganhará mais espaço na edição impressa.
Além de Lemos, os colunistas Luli Radfahrer, Marion Strecker e Daniel Pellizzari continuarão sendo publicados no site de "Tec", assim como a seção de quadrinhos.

A cobertura on-line será reforçada, atendendo a uma demanda crescente. Entre os suplementos, "Tec" tem o maior volume de leitores médios por mês no site, com pico de audiência comparável ao de editorias diárias no dia em que circula no impresso.

Cadernos especiais temáticos continuarão sendo editados, assim como o blog da editoria.
Editoria de Arte/Folhapress 



Folha de S.Paulo:Relatório prevê futuro "sombrio" para a internet


QUENTIN HARDY

Fazer previsões é complicado. O futuro chega até nós em alta velocidade hoje em dia, e há muitas variáveis para que sejam feitas afirmações precisas. Previsões, porém, podem ser úteis: são uma excelente maneira de examinar as paixões do momento.

O Pew Research Center, uma das mais conhecidas organizações de produção de conhecimento estratégico, publicou recentemente o terceiro volume de uma série batizada de "A Vida Digital em 2025". Ainda que visto como um retrato dos dias atuais, e não dos que estão por vir, o relatório, chamado "Ameaças à Rede", é sombrio.

O Pew Internet Project, em colaboração com o Centro para a Imaginação da Internet da Universidade Elon, entrevistou 1.400 importantes pensadores de tecnologia.

Coletivamente, os especialistas postularam que acontecerão novas violações das liberdades on-line por governos; que haverá mais monitoramento e uma queda da confiança; ocorrerá um "esmagamento" da criatividade individual por causa do controle de grandes companhias.

Existem perigos originados até na personalização de conteúdo: essa personalização, uma maneira de limitar a sobrecarga de informação, também foi vista como uma ameaça às descobertas que fazemos por acaso com o que lemos, assistimos e pensamos.

"Perguntamos sobre as ameaças e oportunidades para o conteúdo livre na internet, e recebemos respostas elaboradas", disse Lee Rainie, diretor do Pew Internet Project e coautor do estudo. Comparado com o passado, disse ele, "há uma sensação mais palpável de temor" em relação à vida on-line.

Essa visão problemática surgiu quando o grupo, cujos membros eram em boa parte otimista no início, recebeu pedido para descrever "as ameaças mais sérias ao acesso, ao compartilhamento e ao conteúdo na internet".

Não é surpreendente, então, que a palavra "ameaça" apareça 57 vezes no relatório, enquanto "esperança" e variáveis surjam só 12 vezes. "Corporativa" e "corporação" aparecem 31 vezes –apenas uma delas de forma positiva.

Anteriormente, um grupo de especialistas consultados pelo Pew havia previsto os efeitos de uma internet onipresente, enquanto outra pesquisa observava as implicações da chamada internet das coisas. De forma geral, eram projeções positivas.

Então, quão assustados deveríamos estar com o mundo que está por vir? A época em que o relatório foi produzido ajuda a entender. As perguntas foram feitas on-line entre novembro e janeiro, quando as revelações de Edward Snowden de espionagem da NSA contra cidadãos comuns dominaram o noticiário de tecnologia, o que, segundo Rainie, afetou os palpites das pessoas. "Definitivamente, esse é um ambiente pós-Snowden", diz ele.

Sobre os medos de que companhias famintas por lucros irão limitar o acesso ou explorar o nosso lado preguiçoso, Rainie observou que "há uma preocupação crônica sobre a comercialização de tudo on-line".

Claramente, as revelações de Snowden são importantes para como pensamos a respeito da internet, embora a descoberta de que a NSA espia a vida on-line pareça não ter mudado muito o comportamento das pessoas. Há também outras maneiras sobre como os especialistas poderiam ter pensado a respeito do futuro do conteúdo na rede. A maioria dos especialistas do Pew se identificou como norte-americana.

Eles parecem ter implicitamente definido "conteúdo" como algo pessoal e criado por humanos, valorizando a liberdade de expressão e a diferença. Embora louvável, para alguns críticos essa perspectiva pode já conter um certo tipo de parcialidade do presente. "Passei um tempo nos Emirados Árabes Unidos, e as pessoas de lá poderiam dizer que essa tal de 'internet livre' é um tipo de oligopólio subsidiado vindo do imperialismo cultural ocidental" disse Steven Weber, professor na Escola de Informação da Universidade da Califórnia em Berkeley.

Um ponto sobre o qual os especialistas do Pew e os árabes poderiam concordar, observa ele, é que "eles também acham que a internet é um lugar onde a NSA espiona você". Para Weber, "'O mundo está ficando menos livre e criativo?' é uma retórica exagerada que eu ouvi dos mesmos 'especialistas' da década passada".

Tão importante quanto isso são as mudanças na internet e no conteúdo que não foram citadas. Os especialistas parecem pensar que a internet é um lugar aonde as pessoas vão, ou algo que visitam periodicamente. Cada vez mais, esse parece ser menos o caso –algumas pessoas checam seus smartphones até 150 vezes ao dia, segundo a analista de internet Mary Meeker, mas não é só por isso.

Os dispositivos com dados de localização, os vestíveis (como monitores de saúde que enviam informações à "nuvem"), e um mundo cheio de sensores significam que os hábitos da internet se espalharam por todo o mundo.

Logo, quase toda atividade humana e a internet serão inextricáveis. Meu batimento cardíaco, conectado a um monitor de saúde na nuvem, é conteúdo que funde o homem e máquina. O vídeo ao qual assisto é conteúdo, mas também é onde e por quanto tempo eu o assisti, e o que fiz em seguida.

Claro, esse está longe de ser o tipo de conteúdo e mundo ao qual os especialistas se referiam ao instituto Pew. Isso é compreensível e o porquê de fazer previsões é uma tarefa sobre o presente: A coisa mais difícil de imaginar sobre o futuro é que não estamos nele de alguma forma que nos reconhecemos.

Tradução de BRUNO ROMANI